Mas o engenheiro e ex-analista de investimentos está longe de ser uma figura contestadora que aparecerá estampado na camisa de jovens rebeldes de todo o mundo, em um futuro próximo. Sua revolução começou tão calma quanto o seu jeito. Ela operou mudanças invisíveis até que todos descobriram que ele dava aulas para os filhos de Bill Gates.
Explicando: em 2004, Khan encontrou sua prima Nadia em um evento familiar e descobriu que ela estava tendo dificuldades com matemática na escola. Prontamente se ofereceu para virar seu tutor a distância, já que moravam em estados diferentes. O progresso de Nadia tornou as aulas a distância famosas e, em um dado momento, Khan já estava dando reforços para 15 familiares. “O único problema era descobrir como atender a todos, como dar escala”, diz.
Em 2006, um amigo o apresentou a um site que estava ganhando popularidade: o YouTube. A ideia era de produzir os tutoriais em vídeo e publicá-los para que todos pudessem usá-los no tempo que precisassem. “Eu rejeitei esse plano. Disse para ele que o YouTube era para vídeos de gatos tocando piano, e não para aulas de trigonometria”, brinca. Eventualmente, ele cedeu, e hoje conta que, na época, as suas produções em vídeo ficaram mais populares que suas antigas aulas por telefone quase que instantaneamente.
Com sua conta no YouTube, Khan começou a Khan Academy, com o intuito de produzir vídeos tutoriais sobre diversos temas. Sendo uma organização sem fins lucrativos, o crescimento de seu projeto dependia de doações de usuários, que contribuíam com quantias pequenas. Até que uma investidora depositou US$ 100 mil na sua conta e, em 2009, ele deixou seu emprego como analista de investimentos para se dedicar integralmente a sua escola virtual. “Quando você empreende, você começa ingenuamente, com suas economias”, diz. “O melhor momento para um empreendedor social é aquele em que você pode custear aquilo que sempre sonhou fazer.”
Foi dessa investidora que Khan recebeu uma mensagem de texto, um dia, dizendo que Bill Gates estava citando a Khan Academy em uma de suas palestras – aparentemente, o criador da Windows utilizava os vídeos com seus filhos. “Quando soube disso, comecei a ficar estressado, porque obviamente eu tinha feito os vídeos para minha prima, não para o Bill Gates”, conta.
O efeito Gates Depois desse episódio, a popularidade da Khan Academy cresceu mais ainda. A equipe dele passou de quatro para 40 funcionários – sem contar todos os colaboradores voluntários espalhados pelo mundo -, alcançou 23 línguas, mais de 200 milhões de lições e um total de 6 milhões de usuários mensalmente.
O mais importante, porém - e isso é algo que Khan enfatiza e dissemina como um vírus -, é que o formato de ensino propagado por sua academia tem levado educadores e alunos de todo o mundo a repensar a forma como aprendemos e ensinamos. “No sistema tradicional, nós forçamos as pessoas a evoluírem no sistema educacional, sem ter certeza de que elas se tornaram proficientes no assunto anterior”, diz.
Com os vídeos e o sistema Khan, é possível avaliar o desempenho de cada aluno e trabalhar de forma colaborativa para que todos estejam sempre no mesmo nível ou evoluam de maneira mais equilibrada. “Com os vídeos, o aluno pode vê-los e revê-los. Entender o assunto no seu tempo”, explica. “Isso faz com que a sala de aula vire um espaço de interação entre os alunos e professores, para descobrir as necessidades específicas de cada um.” Dessa forma, alunos não precisariam se dividir em turmas por nível de proficiência. Todos estariam juntos e receberiam auxílios personalizados de um grupo de professores. Até mesmo os próprios alunos se sentiriam estimulados a ajudar seus colegas. E isso tudo já foi comprovado em experiências com a Khan Academy em todo o mundo. “E fazer isso é o mais importante. As habilidades mais importantes a serem aprendidas na escola são a comunicação e a empatia”, afirma.
A Academia do Khan No Brasil, a Fundação Lemann já traduziu e disseminou mais de 400 vídeos da academia de Khan, e suas aulas alcançaram mais de 1,9 milhão de visualizações. Em 2013, essa parceria pretende alcançar mais de 200 salas de aula, sem falar nas escolas que já utilizam os vídeos de forma independente. Nesta semana, Khan se reuniu com a presidente Dilma Rousseff para angariar apoio na expansão do uso da Academia Khan no país.
Para ele, em cinco anos, o Brasil pode facilmente ultrapassar os Estados Unidos. Mas para isso é preciso trabalhar em pontos como as traduções, a transferência da plataforma da academia para o português, mapear os padrões das escolas brasileiras e também analisar o resultados que começarem a aparecer. “As pessoas aqui querem que essa evolução aconteça rápido. Com certeza o Brasil irá se tornar um caso de estudo”, diz.
Também foi lançado no Brasil, neste ano, o livro de Khan “Um Mundo, Uma Escola”, pela editora Instrínseca, em que ele reforça esse novo paradigma da educação. Uma realidade que começou silenciosamente – mas com ares de revolução – com sua prima Nadia, seus vídeos e Bill Gates. “Os vídeos tutoriais, que antes eram apenas um acessório, estão nos ajudando a repensar o sistema educacional”, diz.
Fonte: Revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios, 17/01/2013.
http://revistapegn.globo.com/Revista/Common/0,,EMI328794-17180,00-REEDUCANDO+A+EDUCACAO+COM+SALMAN+KHAN.html
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